Analfabetos x Sociedade Letrada

No Brasil o analfabetismo sempre teve um apelo político e ideológico, sendo um tema educacional e social que sistematicamente retorna á agenda pública apesar de oscilar na escala de prioridades das políticas governamentais. Freqüentemente é tomado como índice de desenvolvimento, associado á grande variedade de problemas econômicos, políticos e sociais, como a criminalidade, o desemprego, a mortalidade infantil, a explosão de natalidade, a pobreza, e as impossibilidades de democracia.
O debate em torno das medidas para erradicar o analfabetismo também assume conotações fortemente políticas, ainda que divergentes.  O brasileiro Paulo Freire com seu entusiasmo em relação ao poder da alfabetização na promoção do desenvolvimento humano, econômico e social, nas décadas de 50, 60 e 70,  foi criticado nos meios acadêmicos. As críticas se voltaram á suposição de que seu método de alfabetização fosse um aspecto definidor do perfil psicológico e do caráter moral do educando. Outros estudiosos também chamavam a atenção para o fato de que a simples aquisição da leitura e da escrita, por si só, não provocariam mudanças nas pessoas e na sociedade.
Se viver o homem em uma sociedade primitiva, em meio a grupos iletrados dos quais não foram submetidos a nenhum tipo de educação escolar (sociedades tribais por exemplo), a ausência da leitura e da escrita, poucos problemas lhe acarretará. Pois mesmo sem ter acesso ao sistema simbólico da escrita, serão capazes de desenvolver  atividades básicas para sobreviverem. Como a caça, a pesca, a culinária, a confecção de artesanatos, etc.  Por outro lado, em uma sociedade letrada, urbana, escolarizada, industrializada, marcada pelo conhecimento científico tecnológico, a situação é muito diferente.
Um membro de uma sociedade  que desconhece a escrita, vive como os demais de seu grupo, inserido numa cultura em que a ausência da escrita não é uma lacuna, e sim parte integrante de funcionamento predominante nessa cultura. Ser iletrado é característica que explica a pertinência do indivíduo a um grupo cultural sem escrita. Entretanto, ser analfabeto na sociedade letrada, indica a ausência no nível individual, de uma competência presente e valorizada nesta sociedade. O grupo cultural constituído pelos chamados analfabetos que vivem inseridos na sociedade contemporânea, tem um lugar social bem definido, trazendo como característica da sua identidade a negação: ‘’ ele não é alfabetizado, não domina a escrita nem a leitura, portanto não tem acesso ao modo de funcionamento da sociedade em que vive’’.este fato evidencia o vazio que sente o analfabeto por não saber ler e escrever.
O analfabeto não é um sujeito incapaz como muitas vezes é rotulado pela sociedade. É alguém á procura de saber, de uma oportunidade de se relacionar com outras pessoas, de um espaço para se expressar. Passando assim de individuo para sujeito capaz de interferir na sociedade e transformá-la.
Segundo o grande professor e filósofo Paulo Freire, o homem só será capaz de transformar a realidade da sociedade em que vive, se descobrir que ela é modificável e que ele é capaz de modificá-la. Portanto a alfabetização só terá sentido se levar o homem a uma reflexão da sua capacidade de refletir sobre sua posição no mundo e  a força transformadora que possui.
O professor é um suporte para o aluno. Suporte  no qual ele supõe que está o saber que lhe falta. Mas ensinar não é enfiar o saber no suposto vazio de quem não sabe. É uma construção em cima de uma idéia, de um diálogo entre educando e educador. Ninguém educa ninguém e ninguém se educa sozinho. A educação não pode ser imposta. Deve ser um ato solidário, um ato de amor.
A visão ideológica que prevalece na sociedade, até hoje, a respeito da educação de jovens e adultos é de uma educação destinada aos menos favorecidos economicamente. E como tudo destinado a essa classe é de baixa qualidade, feita de qualquer maneira, apenas para constar. Tudo é planejado para se atender, com gastos reduzidos, o maior número de pessoas possíveis.
Aceitam-se sem maiores questionamentos, na educação de jovens e adultos, a teoria de que é normal a evasão e repetência de até 70% dos educandos. Esta teoria serve para justificar a baixa qualidade do ensino. Semelhante concepção se dá ao fato de que não é preciso ser professor para dar aulas nos programas de alfabetização de jovens e adultos. As aulas podem ser ministradas por um monitor. Isto é; qualquer pessoa serve. Mesmo sem qualificação profissional. O monitor não tem remuneração, apenas uma gratificação. Não tem vinculo empregativo, nem direitos trabalhistas. (férias, décimo terceiro etc).
Muitos analfabetos não se inscrevem nos programas de alfabetização, por falta de crença nos programas e em si mesmos. Portanto é grande o desafio do alfabetizador. Em primeiro lugar é preciso resgatar a credibilidade dos educandos. É preciso ressaltar a importância da educação em suas vidas e colocar-se na posição de iguais, aprendendo a ouvir muito mais do que falar. Pois além da linguagem ser uma fonte reveladora, possibilita a criação de um forte vínculo entre educandos e educadores.
Embasados nesta reflexão é possível desmistificar a antiga posição a respeito do papel do professor frente ao ato de ensinar. Socializar, dialogar, falar o porque dos procedimentos em sala de aula, contribui para estabelecer vínculos de confiança, garantindo assim a permanência do educando na escola. 
                               

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2 Respostas so far »

  1. 2

    Guilherme said,

    Eu gostaria de saber : O que é Sociedasde NÃO letradas, por favor me ajudem !


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