Archive for julho 16, 2007

Analfabetos x Sociedade Letrada

No Brasil o analfabetismo sempre teve um apelo político e ideológico, sendo um tema educacional e social que sistematicamente retorna á agenda pública apesar de oscilar na escala de prioridades das políticas governamentais. Freqüentemente é tomado como índice de desenvolvimento, associado á grande variedade de problemas econômicos, políticos e sociais, como a criminalidade, o desemprego, a mortalidade infantil, a explosão de natalidade, a pobreza, e as impossibilidades de democracia.
O debate em torno das medidas para erradicar o analfabetismo também assume conotações fortemente políticas, ainda que divergentes.  O brasileiro Paulo Freire com seu entusiasmo em relação ao poder da alfabetização na promoção do desenvolvimento humano, econômico e social, nas décadas de 50, 60 e 70,  foi criticado nos meios acadêmicos. As críticas se voltaram á suposição de que seu método de alfabetização fosse um aspecto definidor do perfil psicológico e do caráter moral do educando. Outros estudiosos também chamavam a atenção para o fato de que a simples aquisição da leitura e da escrita, por si só, não provocariam mudanças nas pessoas e na sociedade.
Se viver o homem em uma sociedade primitiva, em meio a grupos iletrados dos quais não foram submetidos a nenhum tipo de educação escolar (sociedades tribais por exemplo), a ausência da leitura e da escrita, poucos problemas lhe acarretará. Pois mesmo sem ter acesso ao sistema simbólico da escrita, serão capazes de desenvolver  atividades básicas para sobreviverem. Como a caça, a pesca, a culinária, a confecção de artesanatos, etc.  Por outro lado, em uma sociedade letrada, urbana, escolarizada, industrializada, marcada pelo conhecimento científico tecnológico, a situação é muito diferente.
Um membro de uma sociedade  que desconhece a escrita, vive como os demais de seu grupo, inserido numa cultura em que a ausência da escrita não é uma lacuna, e sim parte integrante de funcionamento predominante nessa cultura. Ser iletrado é característica que explica a pertinência do indivíduo a um grupo cultural sem escrita. Entretanto, ser analfabeto na sociedade letrada, indica a ausência no nível individual, de uma competência presente e valorizada nesta sociedade. O grupo cultural constituído pelos chamados analfabetos que vivem inseridos na sociedade contemporânea, tem um lugar social bem definido, trazendo como característica da sua identidade a negação: ‘’ ele não é alfabetizado, não domina a escrita nem a leitura, portanto não tem acesso ao modo de funcionamento da sociedade em que vive’’.este fato evidencia o vazio que sente o analfabeto por não saber ler e escrever.
O analfabeto não é um sujeito incapaz como muitas vezes é rotulado pela sociedade. É alguém á procura de saber, de uma oportunidade de se relacionar com outras pessoas, de um espaço para se expressar. Passando assim de individuo para sujeito capaz de interferir na sociedade e transformá-la.
Segundo o grande professor e filósofo Paulo Freire, o homem só será capaz de transformar a realidade da sociedade em que vive, se descobrir que ela é modificável e que ele é capaz de modificá-la. Portanto a alfabetização só terá sentido se levar o homem a uma reflexão da sua capacidade de refletir sobre sua posição no mundo e  a força transformadora que possui.
O professor é um suporte para o aluno. Suporte  no qual ele supõe que está o saber que lhe falta. Mas ensinar não é enfiar o saber no suposto vazio de quem não sabe. É uma construção em cima de uma idéia, de um diálogo entre educando e educador. Ninguém educa ninguém e ninguém se educa sozinho. A educação não pode ser imposta. Deve ser um ato solidário, um ato de amor.
A visão ideológica que prevalece na sociedade, até hoje, a respeito da educação de jovens e adultos é de uma educação destinada aos menos favorecidos economicamente. E como tudo destinado a essa classe é de baixa qualidade, feita de qualquer maneira, apenas para constar. Tudo é planejado para se atender, com gastos reduzidos, o maior número de pessoas possíveis.
Aceitam-se sem maiores questionamentos, na educação de jovens e adultos, a teoria de que é normal a evasão e repetência de até 70% dos educandos. Esta teoria serve para justificar a baixa qualidade do ensino. Semelhante concepção se dá ao fato de que não é preciso ser professor para dar aulas nos programas de alfabetização de jovens e adultos. As aulas podem ser ministradas por um monitor. Isto é; qualquer pessoa serve. Mesmo sem qualificação profissional. O monitor não tem remuneração, apenas uma gratificação. Não tem vinculo empregativo, nem direitos trabalhistas. (férias, décimo terceiro etc).
Muitos analfabetos não se inscrevem nos programas de alfabetização, por falta de crença nos programas e em si mesmos. Portanto é grande o desafio do alfabetizador. Em primeiro lugar é preciso resgatar a credibilidade dos educandos. É preciso ressaltar a importância da educação em suas vidas e colocar-se na posição de iguais, aprendendo a ouvir muito mais do que falar. Pois além da linguagem ser uma fonte reveladora, possibilita a criação de um forte vínculo entre educandos e educadores.
Embasados nesta reflexão é possível desmistificar a antiga posição a respeito do papel do professor frente ao ato de ensinar. Socializar, dialogar, falar o porque dos procedimentos em sala de aula, contribui para estabelecer vínculos de confiança, garantindo assim a permanência do educando na escola. 
                               

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O papel da escola e do professor na educação de jovens e adultos .

A  escolarização passou a ser uma, entre outras, pré-condições para sobreviver na lógica da sociedade capitalista.
O povo é obrigado a trabalhar para sobreviver e tem de lutar pelos instrumentos que o conduza até o trabalho. A escola é um desses instrumentos.
Entretanto, deparamos com a contradição: o mesmo trabalho que exige do indivíduo um certo nível de escolaridade, muitas vezes é responsável pela evasão escolar, pois o educando jovem ou adulto, encontra dificuldades de conciliar os estudos com as atividades profissionais da qual, na maioria dos casos provem sua subsistência.
Nos últimos anos o Ministério da Educação, preocupado com o analfabetismo, investiu uma quantia significativa na educação de jovens e adultos e lançou campanhas para estimular a população evasiva a voltar para a escola. As inscrições foram inúmeras, porém  conseguir a permanência dos inscritos até a conclusão, pelo menos do ensino fundamental é um grande desafio para o professor.
Pesquisas revelam que o número de evasores, antes de completar o terceiro mês de aula é enorme. A evasão se dá por diversos motivos: dificuldades financeiras, doenças, mudanças de bairro, cansaço devido ao trabalho e desinteresse pelo curso, o que na maioria das vezes  demonstra o despreparo do professor que não oferece recursos atrativos capazes de prender o aluno na sala de aula.
É evidente que a qualidade da educação de jovens e adultos não depende da boa vontade de voluntários dentro da unidade escolar, ou de instituições solidárias. É necessário a formação de políticas que priorizem de fato a qualidade desta modalidade de ensino. Que garantam a contratação de profissionais qualificados, formados especificamente para este fim. O grande especialista, inovador na educação de jovens e adultos, Paulo Freire , há décadas atrás já condenava a utilização de métodos infantilizados na  alfabetização dos educandos.  Imaginem se  um  educando, depois de um árduo dia de trabalho, de enfrentar um trânsito estressante na volta para casa, ao chegar na escola vai se interessar em saber, se ‘’vovô viu ou não viu a uva”.
A qualidade do educador e dos métodos utilizados na educação de jovens e adultos influência muito na permanência ou não do aluno em sala de aula. Abordar temas pertinentes à realidade do aluno, fazer conexões entre as disciplinas e suas relações culturais, econômicas e sociais, é primordial para prender a atenção do aluno, pois torna o aprendizado mais atraente, despertando o seu interesse,e fazendo com que descubra na educação um verdadeiro significado, um poder transformador da sociedade e de sua própria vida.

Ana Granado

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